(Source: una-secontraahomofobia)

Sempre construí minha vida em torno de histórias. Histórias de aventura, mistério, tragédia, comédia e, sobretudo, de amor. Nasci de grandes histórias de amor, então, sempre vivi de um desejo de encontrar a minha própria. Uma na qual os olhares se cruzam em um lugar cheio de gente, ao som de música boa e subitamente tudo deixa de fazer sentido, ao mesmo tempo em que se criam milhares de possibilidades com um único fim.
Se fosse um filme, já imagino todo o quadro tornando-se preto e branco, menos os dois donos dos pares de olhos conectados. Junto da trilha sonora agora podemos escutar um par de corações compassados. Do meu peito emana um calor já conhecido, que espalha pelo corpo, anima as borboletas que vivem dentro e faz tremer as mãos e as vozes. Mas nada mais acontece. O momento termina quando a noite também termina.
Tudo o que fica é uma imagem e uma sensação. Nenhum nome, nenhum telefone, endereço ou qualquer outra coisa que me ajude a construir o personagem. Talvez justamente isso me excite a pensar uma pessoa ótima, que reflita por dentro toda a poesia que traz desenhada em seu corpo. Talvez de imaginar e verbalizar, ou como um aviso de algo meu maior do que eu, o outro agora também me toma os sonhos. Borboletas já não me impedem e conversamos. Acordado, não me lembro de sua voz, apenas do beijo, quando as borboletas se separaram do meu corpo e iniciaram uma revoada multicolorida a nossa volta, encantando o momento.
Passaram-se dias, pessoas, momentos até especiais, mas algo sempre me continha. Possivelmente um arrependimento de não ter obedecido a meus desejos. Ou uma sincera falta de compatibilidade com todos, por mais esforços que eu fizesse. Mas acredito que por nunca ter encontrado ninguém que chegasse perto do meu personagem do sonho. E quando essa busca finalmente tornou-se insustentável e apareceu culpa por descontar em compartilhamentos a frustração que eu sentia, decidi parar. Empurrar-me para cada vez mais dentro de mim e não mais forçar um desenrolar para a história.
Por ironia da vida, do universo e não sei do que mais, neste momento, aconchegado em amigos-irmãos, olho para trás e encontro cores conhecidas. O olhar ganha câmera lenta, na intimidade sobe a trilha sonora do início e a visão vai subindo dos pés à cabeça. Re e conhecendo cada centímetro já bem visto no sonho. O susto me segura, as borboletas me sabotam e escondem todas as palavras. Mas como em toda boa história, ninguém consegue nada sozinho. Os amigos-irmãos fazem chegar até o personagem dos sonhos um pequeno extrato de amor em papel. Tal é a surpresa quando também me chega um pequeno extrato de amor em resposta.
Daí começou minha história de amor. E já adianto que o personagem criado não chega nem perto do que é o real.
[video]

Me marcou a fogo seu olhar pungente marejado. Diretamente nos meus olhos como faiscando e pedindo proximidade. Mesmo que a distância fosse o espaço de uma mesa, me atraíam para perto deles até unirem-se aos meus. Do alto de minha mente juvenil inocente, boba, eu, encabulado, sem saber o que fazer, como agir, mantinha-me hipnotizado pela pungência e teimava comigo mesmo para não cair na armadilha de lhe tomar as mãos. Pois você mesmo me havia dito para não fazê-lo sob risco de quebrar o encanto. Desse momento, meus meandros oníricos me levam a quando não resisti e tomei seus lábios aos meus. O primeiro toque, embalado por sinos invisíveis, tambores internos e borboletas. Devagar, leve, tenro, como devem ser as primeiras grandes coisas. O silêncio me inundou e acabou com qualquer receio que ainda me restasse. Meu eu entregue ao toque macio da sua pele, cabelos, perfume de gente e de colônia de bom gosto. Sentindo, ao mesmo tempo, suas mãos pequenas me apoiando e sentindo-me desaparecendo. Por mais não fosse o lugar mais bonito, no dentro dos meus olhos fechados criou-se a misancene perfeita, que, se me deixar, prometo levar a seus olhos abertos.

Então, estávamos perambulando por aí, curtindo a noite de garoa embalada por fossas de desilusões, problemas e faltas de destinos. Na porta de um prédio qualquer, um mendigo também qualquer me pediu para inteirar o dinheiro dele para comprar comida. Passei direto, como de costume, mas não sei porque me bateu algo, voltei e resolvi pagar. Ele me disse onde era mais barato e que podia ser a marmita pequena, que era mais barata e já matava a fome. Porque o que ele menos queria fazer era me atrapalhar. Como estava chovendo e eu sou um preguiçoso, resolvi ir no restaurante mais próximo mesmo com o moço, que descobri que se chama Wesley, me avisando que é mais caro. Pedi o cardápio e nenhuma opção me parecia apetitosa o suficiente, voltei no moço e o chamei para ir escolher o que queria. Ele disse que estava há vários dias com a mesma roupa e tinha vergonha de entrar em lugares assim. E avisou que qualquer coisa que eu quisesse pedir estava bom, porque ele tinha muita fome e comida era o que matava a fome. Não importava a comida, a serventia era sempre a mesma. Voltei no restaurante pedi o maior prato feito que tinham. Voltei no moço para perguntar o que ele queria beber e me respondeu que não precisava de nada. Insisti e ele me contou que estava com um dente começando a doer e tinha medo de piorar se bebesse algo doce. Se o dente ficasse podre, ele teria que arrancar, porque é uma dor menor, mas ele não queria perder mais um dente. Ofereci então água ou qualquer outra coisa. Ele pediu um refrigerante, para guardar para amanhã. A comida ficou pronta, entreguei-lhe e ele ainda insistiu em me dar as moedas, porque só inteirei o dinheiro que ele tinha.
E eu reclamando de qualquer coisa. Sabe? Enquanto eu queria algum lugar na rua que me fizesse esquecer de mim mesmo, tudo o que ele queria era casa. Então, foda-se eu, você e todo mundo mais desse bando de mimados que somos.
Mason ‘12

Olha, pensei muito e acho que não sei bem dizer o que preciso. Só de dizer isso já penso se devia mesmo dize-lo. Não que dizer seja o problema, inclusive só vejo soluções. Mas essas coisas - delicadas do jeito que são - precisam de tanto tato para o dito não ser mal dito. De todo, acho importante dizer. Fui fazê-lo, mas já não me sobra nenhum ar.